Os primeiros relatos descritos sobre o processo inflamatório são de 3.000 a.c em papiros obtidos no egito. Aulo cornélio celso, em 50 d.c, identificou o rubor, o calor, a dor e o tumor como suas características. Tempos depois, virchow, estabeleceu os cinco sinais cardinais do processo inflamatório como conhecemos até hoje: edema, calor, rubor, dor e perda de função.

A inflamação é uma resposta fisiopatológica observada em tecidos mesenquimais lesados (conjuntivo, ósseo, linfático, cartilaginoso, muscular e sanguíneo), seja por dano tecidual ou infecções.

A inflamação pode apresentar-se de forma aguda, e essa você conhece bem, caso das reações de hipersensibilidade como picadas de insetos, infecções bacterianas, reações alérgicas. Via de regra, observamos que este tipo de inflamação tende a ser resolvido em minutos, horas ou dias. O processo envolve diversas fases (irritativa, vascular, exsudativa, degenerativa-necrótica e, por fim, reparativa), com o intuito de eliminar os fatores desencadeantes da lesão celular e iniciar o processo de reparação do tecido. Neste caso, observamos o predomínio de polimorfonucleares e características de exudato.

Por outro lado, temos também a inflamação crônica, que dura semanas, anos ou até uma vida inteira. Nela o processo inflamatório não se resolve e acaba que sua atividade constante atua destruindo os tecidos, se opondo à capacidade reparativa deles. Vou te dar alguns exemplos para você entender melhor: diabetes mellitus tipo 2, aterosclerose, hipertensão arterial, síndrome metabólica, obesidade, doença de parkinson, doença de alzheimer, esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla, dpoc, fibromialgia, artrite reumatóide, câncer, acidente vascular cerebral e outras. Ficou assustado (a)? Pois é amigo (a), se pararmos para pensar, essa lista contempla talvez as principais causas de morbidade (conjunto de causas capazes de produzir uma doença) e mortalidade atualmente. Todas essas doenças apresentam uma fisiopatologia própria, mas também um ponto em comum. São processos inflamatórios crônicos, insidiosos, gerando uma resposta de baixo grau e muitas das vezes inicialmente assintomáticas. E é justamente aqui que mora o perigo. Você poderia pensar: “ora, se eu não sinto eu não tenho!”. Digo com toda a certeza que você está enganado (a). A ausência de sinais e sintomas infelizmente não atesta a ausência de doença.

Algumas doenças crônicas se caracterizam por um papel fisiopatológico de microambiente pró-inflamatório, também chamado de microinflamação ou inflamação crônica de baixa intensidade.

Pensando nas possíveis causas desse processo, hoje identificamos claramente questões genéticas, questões associadas ao nosso estilo de vida, fatores ambientais, estresse, poluentes disruptores da função endócrina, excessos alimentares, obesidade e outros como mostrado na ilustração abaixo de geraldo e alfenas.

O perigo da inflamação crônica de baixo grau é que a sua natureza silenciosa esconde o seu poder destrutivo. Quando você é lesado de alguma forma, por exemplo, uma picada de inseto, o processo inflamatório gerado no local é um alerta e imediatamente você pode tomar medidas que atenuem o dano causado. Uma compressa de gelo, um medicamento anti alérgico ou analgésico e em poucos minutos o quadro se resolve. Já o quadro inflamatório crônico não necessariamente vem acompanhado de alertas e tampouco de ações corretivas imediatas.

Neste momento talvez você se pergunte: “eu estou inflamado?” Ou “existe alguma forma de identificar se o processo de microinflamação ocorre comigo?”. Ora, diante do que foi exposto, fica evidente que a etiologia variada amplifica as possibilidades de algum grau de inflamação estar ocorrendo com todos nós. Mas seria possível mensurar, deter ou ao menos reduzir a microinflamação? A resposta é sim para todas essas questões.

Muitos mediadores inflamatórios são utilizados para de certa forma quantificar a progressão da resposta inflamatória. Vamos abordar aqui os principais.

Pcr – us: proteína c reativa ultrassensível é um dos marcadores inflamatórios mais importantes, com grande predição para eventos ateroescleróticos (infarto agudo do miocárdio, avc, trombose venosa), pois indica a inflamação dos vasos sanguíneos. A pcr é uma proteína de fase aguda produzida no fígado, nos adipócitos e no endotélio vascular em resposta a inflamação ativa ou aguda. Na prática, utilizamos os seguintes critérios:

< 1,0mg/l: baixo risco (nível ótimo: < 0,11)

1,0 a 3,0mg/l: risco moderado

>3,0mg/l: alto risco

Fibrinogênio: correlação positiva com a resitência à insulina e síndrome metabólica. Promove trombose venosa e arterial.

nível ótimo: < 300 ng/ml

Citocinas inflamatórias: citocinas são mediadores celulares que atuam no desencadeamento das resposta imunes, regulando a duração e a intensidade dessas respostas. São os neurotransmissores do sistema imune. Vou citar algumas:

il-6: marcador de processo inflamatório sistêmico, eleva a pcr, o fibrinogênio, a proteína amiloide sérica. Muito associada a obesidade visceral e risco cardiovascular, sendo a principal citocina pró-coagulante. Valor ideal: < 2,2 pg/ml

tnf: o fator de necrose tumoral é um marcador de processo inflamatório vascular, sendo muito ativo na placa aterosclerótica coronária, estando ligado aos níveis de colesterol ldl oxidada. Valor ideal: < 1,0 pg/ml.

il-10: citocina anti-inflamatória. Risco cardiometabólico: < 3,5 pg/ml.

Homocisteína: a homocisteína é um aminoácido do produto do metabolismo endógeno do ciclo da metionina. É marcador de risco de aterosclerose e trombose. Seu aumento pode ser indicativo de deficiência de b6, b9, b12 e b2 e está aumentada em usuários de ciclosporina, corticoides, metotrexato e portadores de doença renal crônica. Hiperhomocisteinemia em grávidas está associada a defeitos no tubo neural. Homocisteína elevada potencializa o estresse oxidativo e induz a formação de il-8, pcr e nfkb, ampliando a resposta inflamatória. Valor ideal: < 8 micromol/l.

Microalbuminúria: reflete lesão endotelial e pode preceder a síndrome metabólica, a resistência à insulina e o diabetes mellitus.

Relação triglicerídeos:hdl: a síndrome metabólica reflete uma marcante alteração no perfil lipídico. Esta relação tem importância maior do que a avaliação isolada dos mesmos. Relação ideal: < 2,0.

Insulina de jejum e curva de insulina: de fato a resistência à insulina é ponto marcante na fisiopatologia da síndrome metabólica. Tão importante quanto manter os baixos níveis de insulina de jejum é observar a sua curva no teste de tolerância a glicose. Uma liberação excessiva de insulina para manter em níveis adequados a curva glicêmica é a própria constatação de que ocorre uma resistência à sua ação. Como critério, estipulamos que o valor da insulina não ultrapasse em 7 vezes o valor de jejum (basal). Insulina de jejum, nível ótimo: < 6 u/l.

Lipoproteína a: marcador de risco trombótico e de ldl oxidada. Preditor de risco de iam e avc em idosos. Valor ideal: < 30 ng/ml.

Fosfolipase a2: marcador de instabilidade de placa aterosclerótica, evidencia risco futuro de eventos cardiovasculares. Valor ideal: < 150 pg/ml.

Ferritina: proteína de fase aguda, relacionada a processo inflamatórios vasculares. Ideal: mulher < 80 e homem < 90.

Mda: o ácido malondialdeído é um subproduto das prostaglandinas e aumenta com alimentos ricos em carboidratos simples e gorduras, na peroxidação lipídica e nos processos inflamatórios ao atacar a dupla ligação do ácido araquidônico. Pode ser medido no sangue e na urina.

Glicemia: a glicose e outros açúcares circulantes reagem com macromoléculas extracelulares gerando um grupo bioquímico heterogêneo denominado age (produtos de glicação avançada). Este processo aumenta o estresse oxidativo celular e as respostas inflamatórias.

Certamente você já passou por algum check-up anual e alguns desses marcadores estavam presentes no exame, certo? Agora que você já aprendeu um pouco sobre o processo de inflamação crônica, vamos dar um passo adiante e falar sobre o que muito nos interessa: o tratamento.

Sempre falo que não há como tratar uma doença sem conhecer sua fisiopatologia. No caso da inflamação crônica, fica nítido que o pleno entendimento bioquímico e fisiológico do processo ajuda e muito na terapêutica. Eu sempre gostei muito de estudar fazendo resumos e montando fluxogramas e os famosos “esqueminhas”. Vou compartilhar aqui com vocês alguns deles.

O que chama a atenção nesta primeira ilustração é a importância dos fatores modificáveis e sua íntima relação aos hábitos de vida. Cessar o tabaco, praticar exercício físico e melhorar o padrão alimentar são imprescindíveis para a terapêutica eficaz.

Na prática, a intervenção adequada na dieta se resume em:

  • Diminuir a ingestão de óleos ômega 6 (araquidônico, soja, milho)
  • Aumentar a ingestão de óleos ômega 3 (linhaça, epa, dha)
  • Redução da ingesta de gorduras saturadas
  • Diminuição da ingesta de carboidratos de alto índice/carga glicêmica com o intuito de diminuir a hiperinsulinemia
  • Utilização de fitoterápicos capazes de modular as enzimas sintetizadoras das prostaglandinas
  • Aumentar o consumo de fibras alimentares (frutas, legumes e verduras)
  • Utilização de micronutrientes (dieta ou manipulação)

Os “esqueminhas” adiante irão te ajudar a entender melhor.

A curcumina talvez seja um dos fitoterápicos mais utilizados, pela sua importância anti-inflamatória e anti-oxidante, dentre outras.

INFLAMAÇÃO X OBESIDADE

INFLAMAÇÃO X DEPRESSÃO X DOENÇA CARDIOVASCULAR

The New England Journal of Medicine 2002  Nov 14;347(20):1557-65

Circulation 2003 Mar 11;107(9):1303-7

Grammas P et al. Inflammatory factors are  elevated in brain microvessels in Alzheimer’s  disease Neurobiology Aging.2002 Nov-Dec;22(6):837-42

Teunissen CE et al. Inflammation markers in relation to cognition in a healthy aging population. J Neuroimmunology 2003Jan;  134(1-2):142-50.

Barnes PJ et al.Nuclear factor-kappaBeta:  a pivotal transcription factor in chronic  inflammatory diseases. New England Journal of Medicine.  1997 Apr10;33615):1066-71

Pikarsky E et al.NFkB functions as a tumor promoter inflammatory-assocated cancer. Nature. 2004 Sep 23;431(7007):461-6.

Wilson CJ et al. Journal of the American  Geriatrics Society, 2002, Dec;50:2041-2056,

Barzilay JI et al. The relation of markers  os inflammation to the development of  glucosedisorders: The Cardiovascular  Health Study Diabetes 2001 Oct;50(10):2384-9

Suarez E et al. The relation of severity of depressive  symptoms to monocyte-associated proinflammatory  citokines and chemokinesin apparently healthy men.  Psychosomatic Medicine 2003 Dec;65:362-368.

Visser M et al. Elevated C-reactive protein  levels in overweight and obese adults. JAMA 2000 Dec 8;282(22):2131-5

Chung, H et al. Molecular Inflammation  Hypothesis of Aging Based on theAnti-Aging  Mechanism of Calorie Restriction. Microscopy Research andTechniques  2002 59:264-272.

Ômega-3 Fatty acids intake and risk of  Coronary Heart Disease in Womem.Hu,F  et Al. JAMA2002;287:1815-1821

Early protection against sudden death by  Ômega-3after miocardial infarction

Reanalysis of Gissi,Leaf A Circulation2002;105:1874-1875  Dept of Medicine,Harvard Medical School

Stoll BA et al. N-3fatty acids and lipid  peroxidation in breast cancer inhibition.  Br J Nutr 2000 Mar;87(3):193-8.

Murray NR et al. Protein kinase C betaII and TGFbetaII in omega-3 fatty acid-mediated inhibition of colon carcinogeniesis. J Cell Biol 2000 Jun 10;157(6):915-20 .

Terry P et al. Fatty fish consumption lowers  the risk of endometrial cancer: anationwide case-control study in Sweden. Cancer Epidemiol  Biomarkers Prev 2002 Jan 11(1):143-5 .

Terry P et al. Fatty fish consumption and risk of  prostate cancer. THE LANCET volume 357 issue  9270 June 2001 Page 1764.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3788329/